Eu assisti: Zootopia

Quando resolvi assistir Zootopia foi por “protocolo”. Não que o trailer, ou a historia, ou qualquer coisa tenha me deixado desinteressada; pelo contrario: o trailer foi sob medida pra não estragar as surpresas do filme, já apresentava umas piadinhas que eu achei engraçadinhas e tal… mas na minha cabeça não tinha nada interessante pra me colocar naquela expectativa de ver o filme. Eu iria ver eventualmente, mas sem pressa. Talvez assistiria até depois que saísse dos cinemas, sei la.

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Talvez tenha sido porque nas ultimas semanas eu estive numa vibe muito animações-para-adultos; Talvez tenha sido por estar desacreditada na capacidade dos filmes 3D de contar uma historia boa alem do seu visual foderosamente trabalhado; Talvez tenha sido o fato de saber que tinha uma musica clichê da Shakira pra divulgar o filme. Não sei. Muitas possibilidades.

Mas dai o destino aconteceu. E eu acabei indo ao cinema mais cedo do que planejava, e gostei muito mais do filme do que esperava (obrigada, Deus). E da musica da Shakira também.

zootopO que vale é a intenção do fanart, não é mesmo?

Zootopia (sem o subtitulo brasileiro por motivos de: não sou obrigada) é a nova animação da Disney, que se passa num universo onde os animais são desenvolvidos. Eles vivem numa sociedade onde “predadores” e “presas” convivem civilizadamente, mas… ainda ha um certo preconceito no ar quanto à natureza de determinados animais, sua predisposição a realizar determinadas atividades, ou na sua forma de servir à sociedade. E é nesse cenário em que a “pequena e indefesa” coelha Judy Hopps decide se tornar uma policial. Todo mundo fica com um pé atras com essa ideia porque, afinal, ela é uma coelha. Nasceu pra procriar e plantar cenoura. Como poderia designar uma tarefa como a de uma policial?! (Depois tem toda a historia de ela se envolver com a raposa-malandra, o tal Nick Wilde, mas não é o meu foco comentar sobre essa parte da historia)

O filme traz uma forte mensagem feminista, que, diga-se de passagem, me orgulha muito. Ha uns tempos eu estava refletindo sobre a evolução dos filmes de animação, desde a Branca de Neve (princesa indefesa, salva pelo príncipe), passando por Mulan (mulher forte e independente), chegando a Frozen e Brave (explicando a importância de outros tipos de amores até mais importantes que o romance de casal) até chegar na pergunta “mas e agora, qual é o próximo passo?” Fui muito bem surpreendida quando Zootopia trouxe exatamente uma das questões que mais se conversa hoje em dia: a de que “eu posso ser exatamente tudo que eu quiser ser”. E melhor, numa linguagem simples e perfeita para crianças e adultos.

Depois fui pesquisar sobre os diretores do filme e não me surpreendeu ver nomes como Byron Howard (Bolt, Enrolados), Rich Moore (Detona Ralph) e Jared Bush (Operação Big Hero). São nomes que, confesso, eu ainda não conhecia de cor, mas sei que realizaram boas animações dentro da Disney separadamente. Quem diria o que conseguiriam fazer juntos?

Enfil. Filme.

Não só temos a mensagem feminista muito visível na personagem feminina quebrando barreiras e lutando por igualdade, como também temos a barreira de segregação, quando vemos muito claramente o preconceito atingindo animais que “por natureza” supostamente deveriam agir de determinada forma, mas não necessariamente o fazem.

Outra coisa que me impressionou, novamente na questão do feminismo, foi que, embora eu tenha visto o boom de fanarts de Zootopia nas redes sociais, e muitos deles tenham incluido o ship principal do filme, durante os 110 minutos que sentei minha bunda na cadeira não vi uma menção sequer de romance. Na verdade, ha uma amizade muito forte e verdadeira, mas que em nenhum momento é apontada como romance. Não, eu não sou contra essa brincadeira de shippar personagem (inclusive, adoro), mas também admiro que os criadores de Zootopia não tenham tido o cuidado de não deixar traços de romance aparente no filme. Nada de coraçõezinhos, de palpitações, cenas pre-beijo… nada, nada, nada. Tem apenas a historia de uma parceria muito maravilhosa. E isso ganha muitos pontos comigo, pelo menos.

Alem disso, ha um plot twist digno de Megamente (que foi a ultima animação que me surpreendeu assim, na medida do possível). Foi tudo muito bem escrito, de uma forma que fez o filme seguir todo no ritmo certo, apresentar o plot twist no momento certo, desfechar na hora certa, e claro, da forma certa. O ritmo todo do filme é maravilhoso.

Isso sem contar as referências à cultura pop – meu DEUS, como eu amo quando vejo referências assim! São sutis, mas perfeitas para que adultos que tenham assistido O Poderoso Chefão e Breaking Bad deem suas risadinhas abafadas, espremidinhos na cadeira, sem que as crianças notem que não estão compreendendo completamente as piadas que vêm de universos paralelos àquele do filme.

Outra coisa que eu me peguei lendo na internet, e depois pensando sozinha eu achei super interessante foi: como a cenografia do filme descreve muito sobre aquele universo. Lembro que ha uns anos, quando entrei na faculdade de Arquitetura e Urbanismo (a qual estou bem perto de finalizar, alô alô, graças a Deus), vi um grupo de estudo sobre “Arquitetura e Cinema” e achei super legal como conseguiam correlacionar duas coisas aparentemente tão distintas pra chegar à conclusão de como a arquitetura conta a historia junto com os acontecimentos do filme (na época eu não tinha me tocado que cenografia é uma area que se encaixa dentro de arquitetura). Depois que vi alguém comentando sobre o urbanismo de Zootopia na internet, me peguei pensando que “caramba, realmente, quem inventou isso teve umas sacadas sensacionais”. Sacadas, essas, que incluem soluções de acessibilidade, igualdade perante as mais variadas espécies de animais que coexistem… ou não. Porque, às vezes, a sacada é que essa arquitetura também gera segregação. A cidade é cheia de alternativas pra receber todo tipo de espécie no dia a dia, mas quando chega em determinados locais, de repente, não é mais, remetendo à segregação que falei ali em cima. E isso é algo que conta a historia, sem que esta precise ser narrada explicitamente.

Foi, sem duvidas, um filme 10/10 – na medida do possível porque, tem que lembrar sempre que é um filme inicialmente infantil, mas ainda foi sensacionalmente escrito e produzido.

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Eu li: Domu

Em Março eu estava numa pilha pra ler, porque afinal, estou vivendo em outro pais, preciso achar meios eficazes de estudar a língua, e praticar pela conversação não é o meu forte. O meio mais efetivo que eu encontrei pra praticar, realmente, foi ler.

Em outro post eu devo estar comentando sobre isso melhor, mas a questão é que livros têm sido aliados muito fiéis nesse caminho. Mas é aquela coisa: faz muito (muito mesmo) tempo que não leio, estou desabituada com a pratica, então só pensar em passar horas e horas (e dias, e dias) lendo um livro só, já fico cansada. Um dos meios que encontrei pra superar isso foi procurar leituras rápidas, e assim eu me voltei pro universo dos quadrinhos. Aproveitando, então, duas vontades que eu tinha ha algum tempo (aprender uma língua estrangeira e ler mais quadrinhos), resolvi dar um pulo na Mediateca* e ver o que tinha de interessante pra alugar.

*Uma rapida curiosidade: já ate me acostumei com o fato de estar vivendo no segundo maior consumidor de mangas do mundo, atras apenas do próprio Japão. Em absolutamente todas as bibliotecas e livrarias da França a gente encontra sessão de quadrinhos e mangas (às vezes até separados por gênero, tipo sessão de shoujo, sessão de shounen, sessão de tudo quanto é tipo de coisa!) e é por isso que às vezes eu esbarro nuns mangas que eu nunca tinha ouvido falar, como esse :p

Sem querer descobri Domu (que foi traduzido pro francês como Rêves d’Enfants, ou algo como Sonhos de Criança). Foi escrito e ilustrado por Otomo Katsuhiro que por acaso é o mesmo criador de Akira – porém Domu foi publicado um ano antes, em 1983.

A historia é um terror sobrenatural misturado com suspense policial, que começa com uma série de suicídios num condomínio popular. Nos últimos três anos, se contam mais de trinta, e só isso já torna o caso excepcionalmente curioso.

Nesse manga da pra encontrar vários elementos que são retomados em Akira, tipo pessoas com poderes psíquicos, além de um monte de explosão e desastre no meio de um cenário urbano.

Mas ops, melhor não falar muito mais do que isso, senão pode rolar uns spoilers de leve.

O mangaka ganhou muito do meu respeito desde a primeira vez que vi Akira, que é claramente um ícone pra toda uma geração, e tem uma qualidade técnica pra a época muito boa (preciso confessar que essa não é uma das minhas temáticas favoritas, mas também não posso negar que quem trabalhou nisso merece todo respeito, porque não foi pouco suor que foi gasto nessa produção).

Domu é também uma senhora obra, levando em conta toda a riqueza de detalhes nas composição – tanto na dos personagens, quanto na das perspectivas e dos cenários urbanos milimetricamente desenhados, quanto na do ritmo da historia. Ou seja, é pra bater palmas de pé.

 

Sério. Por favor, vamos parar tudo que estamos fazendo so pra olhar esses senhores CLOSES. Assim… sério. Essas hachuras. Por favor. Sério.

(Preciso de um parênteses aqui só pra dizer que antes de Domu, eu estive lendo Persepolis, que é um quadrinho com uma proposta totalmente diferente, um traço simples e economia de informação nas imagens sempre que possível. Estava tão acomodada com esse outro tipo de representação que, quando dei de cara com essas ilustrações que ocupam duas paginas inteiras – a foto da direita, logo ai em cima, é um exemplo disso, mas eu cortei a outra metade :p – perdi até o ar. Não to brincando!)

 

De novo, preciso ressaltar que essa não é a minha temática favorita em historias, mas ainda assim fiquei bem presa à leitura, e ansiosa por cada virada de pagina, que por sua vez sempre me trazia uma boa surpresa, num ritmo sempre muito bem calculado.

As vezes me deparei com quadros com uma riqueza louca de detalhes, e às vezes fui surpreendida pelos vazios, os silêncios, ou os momentos em que o ritmo da historia diminuiu depois de ler tanto quadrinho e estar tão frenética pra chegar ao final. Momentos só pra parar, não precisar ler, e entender só com as imagens. E isso só prova como o Katsuhiro é um bom contador de historias.

Domu, com lá suas 250 paginas, foi um manga muito rapidinho, que eu terminei em uma ou duas tardes. Gostei muito de ter lido algo assim, mas com uma qualidade técnica gritante de tão maravilhosa; gostei de ter reencontrado um manga adulto, com uma trama interessante, sem aqueles exageros tão típicos de manga; e gostei da oportunidade de estudar francês num formato todo diferente do que eu to habituada.

Enfim, a experiência toda eu achei 10/10.