Relembrar é viver: Sobre a primeira viagem sozinha

oje encontrei umas anotações que fiz quando viajei sozinha pela primeira vez. O destino foi Lyon, na França. Foi na época do intercâmbio pela universidade, e eu decidi fazer essa viagem porque já tinha alguma segurança com línguas estrangeiras, e pensei em conhecer uma cidade conhecida, movimentada, e perto de casa (no caso, Nantes). Os dois texto foram um pouquinho editado pra fazer sentido, mas em essência, tá aí:

 

10 . 08 . 15

No meu sentimento Lyon não parece uma das maiores cidades da França, apesar de ser a segunda maior! Acabei não gastando dinheiro com transporte (fora o bondinho que falo no final do texto, todos os meus percursos foram a pé).

Depois de chegar levemente assustada com a localização do meu hostel em um bairro quase todo árabe (lembrando que estou sozinha, não conheço ninguém na cidade, e por vezes os estrangeiros falam idiomas que não conheço, etc etc etc), resolvi dar uma chance ao quarteirão e procurar algo para comer. Encontrei uma lanchonete pequena de um senhor imigrante também, e por ser a única (e provavelmente última) cliente naquele horário tardio do almoço, fui super bem tratada. Comi, conversamos, e eu não demorei pra continuar o passeio. Encontrei não muito longe dali o Rio Rhones separando o lado da cidade em que eu me encontrava e a parte antiga de Lyon.

Nessa parte antiga achei o Museu do Cinema, que quando vi de relance achei que seria resumido a dois ou três andares de artefatos de filmes franceses que não conheço. A fachada do prédio era acanhadinha, camuflada no meio dos prédios históricos, e o museu me pareceu pequenininho e apertado. Pensei que podia ser desperdício de dinheiro se eu não entendesse a importância daquilo que estava em exibição, mas ao menos eu poderia dizer aos meus professora de cenografia que o conheci. Fui surpreendida conforme fui subindo as escadas e me deparando com apenas sete andares de exposição de todo tipo. Filmes nacionais, blockbusters internacionais, e até um boneco mecânico do Alien em escala, que se mexia e emitia sons!

O museu começa com cenários do filme Perfume (que inclusive estavam tão sensacionais que o público fazia questão de respeitar fazendo silêncio), cenas super bem elaboradas, por vezes com bonecos ou informações relevantes sobre o filme em plaquinhas espalhadas aqui e ali. Nos andares acima eu não lembro da ordem, mas lembro que vi também exposições de máscaras de filmes de fantasia, figurinos de todo tipo, storyboards, arte conceitual de naves ou outras ambientações, ala de veículos, ala de filmes de terror, ala de tudo.

Até chegar na ala de cenários em miniatura.

So-cor-ro.

Isso me abre todo um mundo de possibilidades. Maquete para cenografia é um trabalho sem noção! Mas deve ser muito recompensador no fim, imagino. Tenho que destacar que essa ala contava inclusive as miniaturas usadas em Batman Begins para determinadas cenas de ação.
Depois do museu, resolvi subir para a basílica Notre Dame de Fourvière (eita) no topo do monte para ver o pôr do sol. Pena que o horário do sol se pôr agora está todo estranho, e hoje estava um dia bem nublado, e eu me atrasei saindo do museu… Enfim. Deu tudo bem errado. Subi o morro correndo, fiquei sem ar para andar mais rápido e evitar ficar sozinha nas ruelas, morri de medo enquanto passava ao lado dos matagais… Mas no fim, a vista me recompensou. Ver qualquer cidade de cima é bem legal.

Quando entrei de fato na Basílica, só pude notar que aquela era a basílica mais azul que eu já vi na minha vida (?). Não fiquei muito lá também – igrejas monumentais são mesmo imponentes e lindas, e num primeiro momento sempre impressionam, mas seguem uma fórmula geral, então não fiz questão de passar muito tempo. De lá, voltei direto para o hostel porque não queria arriscar a sorte de voltar para casa tarde, no escuro, sozinha e num bairro estrangeiro, ainda mais considerando a atual situação na França. Mas olha que ironia: minha estadia não poderia ter sido mais tranquila.

Pra descer o morro da Basílica tive que pegar o bondinho que desce na diagonal (!) e ainda fiz a viagem de costas (!!) o que me deu um frio na barriga, mas foi um frio na barriga bonzinho.
E assim acabou meu primeiro dia. Aproveitei bem as 12 horas em que passei na cidade, foi bem cansativo, mas eu senti que aproveitei muito bem meu tempo e em geral tive uma ótima primeira experiência de viajar sozinha.

11 . 08 . 15
Com um dia bem fechado e uma chuva incessante, Lyon me lembrou que eu preciso parar de ser pão-duro e pagar logo por umas roupas e calçados de inverno decentes.

Comecei o dia indo ao Museu de Tecidos e Artes Decorativas, acompanhada dos meus melhores amigos sobretudo-impermeável-que-protege-da-chuva-mas-não-aquece e guarda-chuva-mequetrefe-de-um-e-noventa-e-nove. Esse é um tipo de museu que não estou acostumada, mas estou me permitindo conhecer, e me surpreender. O museu expõe tapeçarias de todo tipo, detalhadas com figuras realistas (cenas de animais, paisagens, etc) e padrões clássicos abstratos através dos séculos. As artes expostas no museu são da época de Napoleão a Maria Antonietta, passando por uns nobres aí que nunca ouvi falar.

Ao lado daquele publico idosinho e provavelmente muito culto, me peguei pensando várias vezes sobre a importância dos fanarts na arte contemporânea. Às vezes eu mesma menosprezo artistas que vivem de fanart (no caso, euzinha também) mas se parar pra pensar, as cenas de mitologias greco-romanas são os fanarts daquela época, né. Curiosamente, também achei esse um lugar fantástico pra estudar pixel art (?) porque os princípios pra fazer esses dois tipos de ilustração parecem iguais.

Outra coisa que achei bem interessante foi disponibilizarem os rascunhos dos artistas da época em guache logo ao lado das tapeçarias prontas. Ainda estou estudando a possibilidade de trabalhar com esse material, mas Deus tá enviando muitos sinais de que isso pode ser uma boa aposta. Suspeito, muito suspeito.

Além de salas expondo apenas tapeçarias, o museu (que é bem grande, diga-se de passagem) também tem salas temáticas decoradas como se fossem de época. Estavam expondo uns mobiliários e itens decorativos como vasos e relógios, e o único padrão de todas as coisas é que nada ali é quadrado! Todas as bordas, pés, quinas… tudo tem um desenho sinuoso e afrescalhado. E isso é bem legal de ver, ainda mais agora que estou tentando aprender sobre composições de cenários, e noto que um dos meus maiores erros é cair na composição quadradona, com paredes lisas, portas lisas, móveis lisos. Aqui no museu tudo tem textura, borda, silhuetas loucas, e isso me abre muuito a mente pra arriscar formas mais bizarronas. Em todo lugar tem fomas sinuosas que parecem galhos com folhas, ou animais como cisnes (!!!).

Outra coisa que eu sempre erro na composição de cenários é na falta de humanização. Aqui eu vejo que todos os ambientes levam relógios, velas, potes, caixas, gaveteiros… Tem candelabros de todos os tipos: de mesa, de parede, de teto. Estão em todos os formatos e composições, e pensar em transformar essas formas em desenho já me deixa ansiosa (e cansada) só de pensar. Todos os cômodos (eu disse todos) têm lareira de tijolo por dentro, e mármore por fora (eu nunca tinha me tocado de como isso faz todo sentido do mundo). Tem veludo por todas as partes, e esse parece um tecido muito legal de transformar em desenho. É tudo bem lindo mesmo, me sinto dentro de um filme de época.

Esse museu foi a maior das surpresas porque foi um show de composição à parte.

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