Eu li: Dois Irmãos, ilustrado por Fábio Moon e Gabriel Bá

Um dos meus objetivos principais na CCXP 2016 era de encontrar artistas nacionais e suas novas publicações. Foi, então, uma oportunidade muito legal pra comprar o tão falado Dois Irmãos, que é o último quadrinho ilustrado pelos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá!

O livro original foi escrito por Milton Hatoum em 2000, e conta a história da família descendente de libaneses vivendo em Manaus. O casal principal, quando resolve ter filhos, geram os gêmeos que protagonizam a história. Apesar de idênticos, eles são tratados como diferentes entre si, e por isso crescem distantes um do outro (em todos os sentidos possíveis). A trama gira em volta desses sentimentos de ciúme, inveja e orgulho, gerados pela distância e o infindável desafeto entre os dois.

O que eu gostei: o quadrinho é uma leitura super interessante e rápida, e achei bem indicada pra quem inicialmente não se interessa pelo tema (como eu mesma). É ótimo pra quebrar a ideia de que literatura brasileira é desinteressante. Eu mesma confesso que tenho alguma dificuldade em escolher livros brasileiros porque, ironicamente, é raro que eu me interesse ou me identifique com suas histórias. Mas acho que isso é só falta de conhecimento no que esse tipo de literatura pode me oferecer. Ter ouvido boas críticas sobre o Dois Irmãos, e depois ainda ter assistido ao painel na CCXP 2016, me deu gás pra procurar esse quadrinho, e foi uma ótima (re)descoberta.

Porém…

Imagino que o quadrinho, por ser uma leitura tão rápida, nem sempre passa a profundidade que o autor mostra no livro-de-verdade. Quer dizer, sei lá, né. Às vezes as ilustrações são bem autoexplicativas, e mesmo sem texto passam mensagens bem sutis porém fortes que talvez o texto escrito tenha dificuldade de transmitir. Ainda assim, por eu ter lido num dia só, acho que perdi um pouco da digestão do drama. Se eu estivesse lendo o livro original, em suas 200 e tantas páginas, talvez eu tivesse “saboreado” melhor o peso da história. Porém também confesso que ter chegado ao final do livro mais depressa é que me fez ganhar interesse por entender a profundidade real da história, e dar uma chance ao livro-de-verdade. Enfim, faca de dois gumes, né. Mas no geral, fui bem surpreendida positivamente! Foi uma experiência bem melhor do que eu esperava.

(Não, fala sério, é muito maneiro esse negócio de trabalhar os cenários em positivo e negativo!)

Eu adorei as ilustrações, mesmo que sejam fora do padrão do que eu costumo curtir. São simples, mas isso não quer dizer que foram feitas de qualquer jeito. Claramente o Fábio e o Gabriel tiveram muita cautela na hora de fazê-los, porque tem um jogo de contrastes muito bonito em várias cenas. Dei atenção em especial às cenas de interiores, que ganham profundidade nas sombras chapadas e muito contrastantes (vide imagem acima) ou ganham grandes destaques em pontos focais com iluminação (vide última imagem do post).

Eu também achei muito incrível que em nenhum momento eles usam de artifícios pra encontrar um meio-tom no meio da história monocromática. Nada de texturas leves ou cinzas: é sempre preto ou branco. Quer dizer, até tem umas “hachuras”, mas acho que são mais “ranhuras” do que hachuras propriamente. São muito grossas e pesadas! Achei um recurso muito interessante. E é nessas cenas detalhadas, com volume de personagens e detalhes de ambientações que se percebe como isso é trabalhoso de criar! Enfim: esse estudo de luz e sombra ficou muito, muito bom.

É muito legal ver também a identidade dos personagens nesse tipo de traço tão único. Acho incrível como existem traços tão únicos de cada um dos personagens, mesmo quando mostram eles envelhecendo. Exemplo: Zana adolescente, adulta e idosa tem os mesmos traços, e eu acho bem legal como ela se faz reconhecível mesmo que por vezes seu nome não seja citado.

Outro recurso legal foi o modo de diferenciar os gêmeos além da cicatriz! Da primeira vez que li, não vi diferença entre eles. Esperei até o momento que se faz a cicatriz no rosto de Yaqub pra poder diferenciá-los por essa marca. Mas depois alguém (cof – Guilherme – cof) me apontou a diferença no sombreamento do cabelo que se faz muito visível para reconhecer quem é quem, apesar dos gêmeos serem idênticos – e eu achei essa saída bem crústica, já que eles precisam manter a fisionomia idêntica.

Na CCXP o painel de Dois Irmãos foi apresentado com o autor do livro, os quadrinistas e agora a equipe que produziu a minissérie da Globo que vai contar essa história também. Embora eu não seja fã de televisão, confesso que fiquei bem curiosa pra ver o que vão fazer. De novo: não é o tipo de literatura que me interessaria inicialmente. Mas o mesmo aconteceu na época da minissérie Capitu, que me fez ver (e gostar de) Dom Casmurro como eu não tinha visto (e gostado) antes.


(Minhas paginas favoritas do livro <3)

Ainda falando sobre a CCXP, uma das coisas mais legais que aprendi e espero levar pro resto da vida, foi algo que o Cauã Reymond disse (que inesperado, não é mesmo?): a leitura da ficção é importante porque, apesar de narrar histórias que não existiram, são muito reais e relacionáveis com a gente mesmo. Tem gente que se prende na literatura da auto-ajuda ou nos livros de pessoas bem sucedidas, e esquece que a vida de todo mundo tem falhas, e as coisas não são simples de resolver como essa literatura às vezes passa. Ler ficção é bom porque faz a gente lembrar que as coisas nem sempre dão certo, e isso faz parte de viver.

Eu “li”: The Art of Tonari no Totoro

Não se nega a importância de Hayao Miyazaki na a animação 2D, mas de uns meses pra cá, confesso que tenho admirado cada vez mais o seu trabalho – principalmente depois que descobri os artbooks dos seus filmes mais famosos, como o de Meu Vizinho Totoro.

(Pausa para a observação: sim, recentemente ele mudou de ideia e se rendeu ao 3D, mesmo que apenas para um curta-metragem, mas não acho que isso seja de todo mal, porque ou era isso, ou era aposentadoria. Sabe-se la como esse cara vai adaptar a estética do 3D pros seus gostos, mas confesso que tô bem curiosa pra ver como isso vai se desenrolar)

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Eu (re)descobri Totoro depois de “velha”, e num primeiro instante fiquei meio decepcionada com o que assisti porque, de alguma forma, eu tinha uma expectativa enorme pra ver uma fantasia muito mais exagerada – mas calma! Economizem nas pedradas, porque eu sei que estou cometendo um crime hediondo declarando esse tipo de coisa, mas vou me explicar melhor quando postar especificamente sobre o filme.

Hoje eu claramente me arrependo de um dia ter dito que Totoro não era “tudo aquilo que falavam”, e tenho o maior carinho pelo filme <3 Estranhamente, o que eu mais gosto hoje é exatamente a sutileza que eu não gostei da primeira vez que o vi. Explica essa, Freud.

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O artbook mostra o processo dos designs dos personagens, partes do storyboards, croquis em aquarela, imagens de artes finalizadas, mapas (!!),  a planta baixa da casa da família (!!!), alem de varias pequenas notas, que juntas explicam a maior parte dos desafios de montagem do filme (às vezes até em forma de citação: a maioria do próprio Miyazaki, outras de Kazuo Oga, o diretor de arte).

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Mas uma das coisas que mais me encanta no livro todo é que, folheando, da pra ver o quanto o filme é verde.

Do nada, verde. Pois é.

Miyazaki sempre arranja uma brecha nos seus filmes para falar da relação do homem e a natureza, e numa historia sobre Totoro, o espirito da floresta, não podia ser diferente. Todas as artes de exteriores são trabalhadas em pequenos detalhes de uma sutileza muito icônica, e toda vez que eu abro o livro numa pagina aleatória, quase posso ouvir aquela cigarra que tem em todos os animes cantando ao fundo.

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Eu não valorizava tanto assim artbooks, até folhear esse. Ele é uma senhora referência a quem gosta de aquarelas, ou mesmo pintura em guache/tinta acrílica. <3

Alias, qualquer artbook do Miyazaki deve ser.